Forno Comunitário da Escorregueira

Forno Comunitário da Escorregueira

De uso colectivo (comunitário), era neles que as freguesas (população) coziam o pão, umas vezes mensal, outras quinzenalmente, ou mais de amiúde, conforme as necessidades e as posses.
As(os) forneiras(os), não sendo verdadeiramente proprietárias(os), orientavam todas as operações de fabrico, através de arrendamento ajustado, a troco de pão (póia).
Aos homens cabia a pesada tarefa de abastecer o forno de lenha, que acarretavam em grandes molhadas, às costas, sob as quais se escondiam quase totalmente, não permitindo o seu reconhecimento.
A ordenação das fornadas e todos os passos da laboração eram tarefas que só à mulher diziam respeito - todas elas sabiam cozer o pão e em tempos idos, nenhuma mulher se casava sem ter aprendido esta arte.
Era necessário pedir a vez para a cozedura. Havia que respeitar a ordem estabelecida e dessas apenas a forneira tinha conhecimento.
Altas horas da madrugada, batia às portas e com a sua voz bem conhecida ordenava:
“ O “ti” Maria, peneire e ponha a água”. Voltava depois a passar e dizia “pode amassar”. Finalmente mandava tender – “Ó ti’ Maria do Céu!!! Já pode tinder!!!”
Iniciava-se então o trabalho sábio e delicado, começando pelo peneirar da farinha donde se retiravam as impurezas e se separava o farelo que iria constituir um reforço alimentar dos animais domésticos.
Juntava-se depois a água quente e amassava-se de modo a que toda a massa resultasse fina e bem “obrada”. O passo seguinte, talvez de menor trabalho, destinava-se a fintar (levedar) a massa num ambiente quente e aconchegado, não fosse a massa arreganhar, o que traria atrasos indesejáveis. Umas cruzes, marcadas com a rapadoira, davam bem sinal da evolução da fermentação, pois o crescimento da massa iria absorvê-las.
A forneira, na sua ronda, levantava o panal e observava o adiantamento da levedura. Ao mesmo tempo dava indicações de como estava a decorrer o trabalho, comparando com o que se ia passando em casa daqueles que iriam cozer na mesma fornada. Sim, que o forno não era usado individualmente. Como eram grandes e para melhor aproveitamento juntavam-se duas ou três interessadas na mesma fornada.
Com tudo preparado, era então a vez de passar a massa da masseira para o tabuleiro, já dividida em pães com a ajuda da rapadoira, pães que seriam ainda tralhados em pormenor. Era a fase de tender. No tabuleiro, os pães eram transportados à cabeça, para o forno, cobertos com um panal branco de linho ou pano-cru. Era no interior das instalações térreas, mal iluminadas pelo candeeiro ou candeia, que a farinha amassada iria levar as últimas voltas e voltinhas que lhe davam a aparência final. Nas mãos da dona da fornada, que segurava com perícia a malga de baquiar, volteava uma bola de massa, envolta em farinha até tomar forma de uma póia que não deixasse mal vista a dona do pão, uma vez que o aluguer do forno e o trabalho dos forneiros eram pagos com esse pão especial, que se distinguia dos outros pelo tamanho. A malga de baquiar servia, também, para dar formato às restantes broas, de tamanho menor que a póia.
Para distinguir os pães cozidos na mesma fornada, eram feitas marcas. Um não era marcado, outro tinha a marca de um dedo, outro um belisco ou “blusco” como se dizia em Casegas.
Quando, por qualquer circunstância, não era possível cozer o pão e a família já tinha comido todo o que tinha feito na cozedura anterior, pedia-se emprestado à vizinha ou familiares, pão que seria depois tornado.
Ouvia-se com frequência a expressão:
“Ó vizinha tem cá pão? Empreste-me lá um, que logo lho torno!”
A broa de milho e o centeio escuro (negro) eram mais utilizados na alimentação. Reservava-se o trigo para ocasiões especiais, que tanto podiam ser de doença de algum membro da família, ou de festividade. Na festa anual de Agosto, em honra do Padroeiro, nunca faltava o trigo, bem como uma perna de carne da cabra assada no forno, em tabuleiros de barro, onde ficava toda a noite, depois de cozida a última fornada de pão. Aproveitava-se também o calor do forno, após a última fornada, para cozer feijão, em tachos de barro, que havia de sair macio, aromático e saboroso.
Dizem testemunhos autênticos, que, na semana anterior à festa do Padroeiro (São Pedro ad Víncula), os fornos apenas coziam trigo, desse que, aberta a arca, perfumava a casa do fundo ao cimo.
A utilização mais frequente desse cereal, por parte dalgumas famílias era sinal de abastança e poder.


(Casegas, Minha Terra Minha Gente – Sérgio Saraiva, 1997)